Quando ainda muito menina, num dia muito distante, ela foi ao banheiro com pressa, fez seu xixi, puxou a saia, e saiu correndo, sem sequer olhar pra privada, baixar a tampa ou simplesmente puxar a descarga. O pai assistindo a correira da filha, e tendo visto de onde ela saía, puxou pelo braço, e levou de volta ao banheiro. Em silêncio ele olhou pra ela, e ela pra ele, que voltou os olhos para a privada e pra ela novamente, tudo muito rápido. Deu um tapinha não muito leve na cabeça da filha e disse: ” Puxa a descarga, guria!”E ela bem sem graça obedeceu, e também nunca mais esqueceu a lição.
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No colégio paredes azulejadas em azul claro, mas um azul bonito. Aquele corredor bem iluminado, mais uma vez aquele banco de madeira, do mesmo tipo que tinha no auditório. Tantas vezes sentou nele enquanto aguardava a diretora chamá-la. Sempre metida em confusão… E aquelas duas portas instigando seus olhos, podia ver os azulejos, os misteriosos banheiros da secretaria da escola. Pareciam tão diferentes dos banheiros dos alunos. Um era rosa e o outro num tom entre azul e verde. Tão mágico e tentador, tão distantes dos banheiros brancos e entediantes destinados aos alunos. Sempre quis entrar naqueles banheiros, descobrir as diferenças, mas só conseguiu a oportunidade depois de adulta. Três cabines, sem papel higiênico, sem sabonete. Perdeu o encanto.
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Nunca pensou que um dia trabalharia numa instituição de ensino, muito menos na secretaria. Lugar bem iluminado, arejado, cubículos dividindo os departamentos, um corredor comprido. E então duas portas de madeira lado a lado. Masculino e feminino, sem maiores distições entre eles. Ambos com o mesmo espaço e mesma estrutura, um longo balcão de madeira com tampão de granito ou mármore num tom próximo ao da madeira, um espelho bem largo com luzes na volta, paredes brancas, e mais uma porta separando a privada do resto.
Não sabia quanto ao masculino, mas o feminino era cheio de cartazes. Todos implorando por educação.
“Deixe a porta fechada depois de usar”
“Evite entupimentos, não jogue o papel na privada, use a lixeira.”
“Enrole seu absorvente em papel higiênico antes de colocá-lo no lixo.”
“Depois de fazer suas necessidades, feche a tampa e puxe a descarga.”
Instruções óbvias para quem tem educação, ou boa memória para pequenos traumas. Mas parece que nem todos pensam da mesma forma. E então os cartazes, como foi atestado por ela no momento, tinham motivos para estarem naquelas paredes. Diante da privada, agora completamente ocupada por uma coisa boiando e com o assento borrado por algo escuro, observando o papel higiênico sujo no chão, agora, ela dava graças a Deus, por seu pai ter lhe dado educação, da forma dele é bem verdade, e por já ter conhecido banheiros de outras secretarias, e saber que nem sempre um ambiente voltado para o ensino garante boa educação.
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Dê-me a oportunidade de conhecer teu banheiro, e te direi quem és.