Já dizia o rei

Já dizia o rei

Eu voltei,
agora pra ficar,
porque aqui,
aqui é o meu lugar
Eu voltei pras coisas que eu deixei,
eu voltei …

Tá… a verdade é que eu voltei. Se eu vou ficar já é outra história.

O fato é que minha cabeça anda fervendo e eu preciso colocar as ideias pra fora.

“Melhor pra fora que pra dentro!”

Contrariando as convenções

Contrariando as convenções

Pra mim as pessoas usam a aliança no dedo errado. Ora, colocar o símbolo da união entre duas pessoas no dedo que atende pela alcunha de anular, não pode dar em boa coisa.

Eu ainda acho que o certo seria usar no  polegar, tá certo que ele é opositor.  Mas assim a gente já tem uma prévia do que está por vir. Ou alguém ainda acredita que casamento é um mar de rosas?

Convenhamos, antes opositor que anular.

Ta Yeu – A riqueza

Ta Yeu – A riqueza

Eu joguei o I Ching hoje, antes de sair de casa. Eu tirei um hexagrama tudo de bom, a riqueza. O presságio foi sensacional, ainda mais considerando o quanto tenho me achado mergulhada no cocô, como diria uma velha amiga minha.

[. . .] a época lhe é favorável. Você goza de um domínio das coisas e de total liberdade de ação. Apesar de nada fazer, as pessoas e as honras vêm até você: reconhecimento, amizade, riqueza.

E eu sai de casa confiante de que tudo estava muito bem na minha vida.

Então eu fui pagar uma conta com meu cartão de débito, e o cartão não autorizou. Eu tentei de novo. E de novo não passou. Eu fui no caixa do banco. Eu descobri que o banco descontou todo dinheiro que ainda existia na minha conta e mais um pouco, por conta dos juros que deveriam ser descontados apenas no mês que vem, segundo constava nos últimos extratos da minha conta.

Eu fiquei deprimida. Eu fiquei muito irritada com o I Ching.

Se isto é riqueza, que Deus me livre da Pobreza!

Da Preguiça

Da Preguiça

De todos os pecados capitais acho a preguiça o mais idiota e sem graça, eu mesma teria preguiça de classificar a preguiça como um pecado, mas isto realmente não depende de mim, e nem vem ao caso. Eu não costumo ser preguiçosa, ao menos não costumava. Mas o fato é que tenho andado assim, com preguiça.

Preguiça de tudo e de todos. Preguiça de acordar, vestir, falar, ouvir, raciocinar, relacionar.

E  foi então, talvez pela ausência passageira da emoção que outrora existiu neste corpo, que até meu cérebro calou. E eu fiquei aqui muda,  assistindo a minha vida passar.

Darwin tinha razão

Darwin tinha razão

Estava bem bela caminhando rumo ao meu trabalho, quando vejo duas pombas na calçada, conversando naquela língua estranha das pombas, uma mais a frente da outra. Então, para meu espanto e descontrole emocional, elas calmamente decidiram atravessar a rua no sentido literal. E andando sobre as duas patas num estilo que lembra aquelas comadres indo à missa,  ainda conversando naquela língua estranha, elas atravessaram calmamente toda a rua e subiram no outro lado da calçada. Não deram a mínima para os carros que nem sequer notaram sua presença…

Fiquei pasma, isto que é adaptação!

Desculpa, mas eu não morri.

Desculpa, mas eu não morri.

E então você pega a gripe suína e fica uma semana de molho em casa, com todo o aparato que a mídia julga necessário. Caminhando de máscara na rua, ironias do tipo “hipocondríaca!” e “Ainda no tempo da máscara…” ou então as funcionárias das instituições de saúde evitam o atendimento e chegam a falar de costas, comportamento que dá vontade de tossir o vírus na cara das pessoas.
Você fica isolada no quarto com a janela escancarada “pra ventilar”; seus talheres, roupas, toalhas e afins são considerados material radioativo; sua irmã simplesmente desaparece por uns dias; sua mãe vira fiel enfermeira, enquanto tenta decidir por usar a máscara com os óculos e não enxergar nada à sua frente, ou usar os óculos sem a máscara pra poder enxergar correndo o risco de ficar doente…
Graças à Deus uma semana passa rápido!
Então no dia que o atestado acaba, chove que é uma desgraça e você toma ”O banho” de chuva.
Até aí tudo bem, com a quantidade de remédios ingerida, dificilmente alguma coisa afetará o corpinho recém saído da tumba.
E de volta a vida e ao trabalho… os colegas e amigos, até os mais próximos ficam incrédulos que você já esteja bem e colocam em dúvida se você realmente contraiu a maldita gripe, porque simplesmente não pode, a gripe tem que matar alguém, ou no mínimo, tem que evoluir pra uma pneumonia. Tem que ter adrenalina, ou melhor, sofrimento, dor, medo de morrer… Ninguém fica realmente feliz de ver que tudo passou bem, só existe frustração. E por um momento você se convence de que por certo deveria ter morrido, ou ao menos ficado internada por uns dias, assim todos estariam satisfeitos agora, pois teriam uma história triste pra contar.

Sabe, cada dia me convenço mais de que as pessoas não encontram emoção na própria vida.
As pessoas são deveras esquisitas.

Conversas alheias

Conversas alheias

E mais no fundo do ônibus duas amigas conversavam:

- Ah não, comigo não mesmo! Homem, pra mim, tem que acordar às 5:30 da matina e tomar o chimarrão juntinho antes de ir para o trabalho. Onde já se viu querer acordar tarde com essa idade, que exemplo vai dar para os filhos.
- É verdade.
Agora essa mania de acordar depois do meio dia, perde a metade do dia e vai fazer o que depois? Nada! Pra mim o dia começa cedo, tem que fazer alguma coisa pra aproveitar. Ora, sair pra passear só depois das cinco da tarde, bem capaz! Não, homem que é homem tem que ser parceiro, acordar cedo e de bom humor, me acompanhar no café, tomar o chimarrão e ir trabalhar. Ora ficar de vadiagem até tarde, pra mim não serve!

E lá no meu íntimo eu entendi exatamente o que ela quis dizer com a mania de acordar tarde, e perder o dia e não saber aproveitá-lo, mas eu não faço a exigência do acordar às 5:30 da manhã, nem forço a tomar chimarrão, também não exijo a companhia no café da manhã e muito menos falo do exemplo aos filhos, que nem sequer existem.

Viu, eu nem sou tão chata, eu poderia ser beeem pior!

Desconfio…

Desconfio…

Desconfio de tudo e de todos. Porque pra mim é simples, todos são culpados até que se prove o contrário.

Uma filosofia de vida semelhante a da Igreja Católica com seu pecado original, que na minha versão equivale a “maldade original”.

É por isso que não aceito nada de alguém que eu conheça por menos de um ou dois meses. Observo até que eu tenha certeza de quais suas intenções, assim posso analisar todos os prós e contras. Balas, bombons e chicletes, agradeço, disfarço e jogo tudo fora. Não que eu acredite na existência de um psicopata em cada esquina, mas creio na hipótese dos objetos imantados, pragas e mandingas. Até porque sou forte adepta do ato de rogar pragas.

A-d-o-r-o uma praga!
Rogo várias inclusive!

Desconfio…

Porque eu prefiro ser essa paranóia ambulante, do quer crer na boa fé de todo mundo a todo instante.

Pequena desenhista

Pequena desenhista

Estávamos os dois, eu e o Excelentíssimo, observando a menina na mesa do lado, que desenhava enquanto os pais almoçavam. Então, com um sorriso doce, ele pergunta:

- Quando tu era pequena, gostava de desenhar?

-Adorava. Meu pai me dava umas folhas de rascunho do escritório e uma caixa de lápis de cor e giz de cera. Eu passava a manhã inteira desenhando, enquanto esperava minha irmã ir me buscar.

- E o que tu desenhavas?

- Caveiras, vampiros, bruxas e mulas sem cabeça. Eu fiz uma série de desenhos com bruxas e coisas assombradas. Me pai até guardava pra mim.

- Mas quantos anos tu tinha?

- No máximo uns oito ou nove anos… Teve uma época que eu fiquei muito impressionada com Jesus Cristo na cruz, sabe… Lembro de desenhar umas pessoas crucificadas também.

Ele incrédulo, sorri. Devia estar pensando “Onde diabos amarrei meu burro?!”
Demasiado tarde, agora é torcer pra não ter filhos, vai que eles puxam à mim.

Dos banheiros

Dos banheiros

Quando ainda muito menina, num dia muito distante, ela foi ao banheiro com pressa, fez seu xixi, puxou a saia, e saiu correndo, sem sequer olhar pra privada, baixar a tampa ou simplesmente puxar a descarga. O pai assistindo a correira da filha, e tendo visto de onde ela saía, puxou pelo braço, e levou de volta ao banheiro. Em silêncio ele olhou pra ela, e ela pra ele, que voltou os olhos para a privada e pra ela novamente, tudo muito rápido. Deu um tapinha não muito leve na cabeça da filha e disse: ” Puxa a descarga, guria!”E ela bem sem graça obedeceu, e também nunca mais esqueceu a lição.
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No colégio paredes azulejadas em azul claro, mas um azul bonito. Aquele corredor bem iluminado, mais uma vez aquele banco de madeira, do mesmo tipo que tinha no auditório. Tantas vezes sentou nele enquanto aguardava a diretora chamá-la. Sempre metida em confusão… E aquelas duas portas instigando seus olhos, podia ver os azulejos, os misteriosos banheiros da secretaria da escola. Pareciam tão diferentes dos banheiros dos alunos. Um era rosa e o outro num tom entre azul e verde. Tão mágico e tentador, tão distantes dos banheiros brancos e entediantes destinados aos alunos. Sempre quis entrar naqueles banheiros, descobrir as diferenças, mas só conseguiu a oportunidade depois de adulta. Três cabines, sem papel higiênico, sem sabonete. Perdeu o encanto.
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Nunca pensou que um dia trabalharia numa instituição de ensino, muito menos na secretaria. Lugar bem iluminado, arejado, cubículos dividindo os departamentos, um corredor comprido. E então duas portas de madeira lado a lado. Masculino e feminino, sem maiores distições entre eles. Ambos com o mesmo espaço e mesma estrutura, um longo balcão de madeira com tampão de granito ou mármore num tom próximo ao da madeira, um espelho bem largo com luzes na volta, paredes brancas, e mais uma porta separando a privada do resto.
Não sabia quanto ao masculino, mas o feminino era cheio de cartazes. Todos implorando por educação.
“Deixe a porta fechada depois de usar”
“Evite entupimentos, não jogue o papel na privada, use a lixeira.”
“Enrole seu absorvente em papel higiênico antes de colocá-lo no lixo.”
“Depois de fazer suas necessidades, feche a tampa e puxe a descarga.”

Instruções óbvias para quem tem educação, ou boa memória para pequenos traumas. Mas parece que nem todos pensam da mesma forma. E então os cartazes, como foi atestado por ela no momento, tinham motivos para estarem naquelas paredes. Diante da privada, agora completamente ocupada por uma coisa boiando e com o assento borrado por algo escuro, observando o papel higiênico sujo no chão, agora, ela dava graças a Deus, por seu pai ter lhe dado educação, da forma dele é bem verdade, e por já ter conhecido banheiros de outras secretarias, e saber que nem sempre um ambiente voltado para o ensino garante boa educação.
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Dê-me a oportunidade de conhecer teu banheiro, e te direi quem és.